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Especial Trigo: Futuro

Para que o trigo gaúcho volte a crescer são necessárias ações dos diferentes elos da cadeia


Continuidade da busca do aumento de produtividade e resistência genética das novas variedades é defendida por especialistas

Foto: Divulgação Biotrigo

Para que o trigo volte a ocupar de destaque na agricultura gaúcha e brasileira são necessárias ações integradas e que encontrem respaldo em cada etapa seguinte. Nesta última reportagem desta série, especialistas apontam medidas que são fundamentais para a recuperação efetiva da cultura que envolvem principalmente os agentes envolvidos depois da porteira das propriedades como políticas que garantam competitividade no mercado e também facilidade de escoamento e desburocratização de pagamentos estatais.

Entender as cadeias produtivas de forma integrada é o primeiro passo defendido pelo pesquisador da Embrapa Trigo Gilberto Cunha. Para ele, é ilusório o conceito de que há apenas uma cadeia trigo. “O complexo agroindustrial do trigo se divide em muitas cadeias. Há uma cadeia de insumos e outra de serviços voltados à produção nas lavouras; há uma cadeia de comercialização e seus múltiplos agentes até a indústria moageira; há cadeias depois dos moinhos que se fracionam na cadeia da indústria de pão, na cadeia industrial de massas alimentícias, na cadeia da indústria de biscoitos etc. que carregam e comportam inovações tecnológicas de toda ordem”, explica.

Para ele, se quisermos, efetivamente, primar pela competitividade no complexo agroindustrial do trigo no Brasil, não se pode ignorar a necessidade de melhorias contínuas de gestão de processos e, cada vez mais, da incorporação de inovações de toda ordem, desde as de base tecnológica no uso dos insumos no campo, de processos em tecnologia de alimentos, em logística e em gestão de negócios.

 

Identidade e independência

 

Entre as ações elencadas por Cunha como fundamentais para o desenvolvimento da cadeia está o alinhamento dos custos de produção com a expectativa de preços praticados no mercado internacional; produzir acima da demanda interna, que gira entre 10 e 11 milhões de toneladas anualmente, para que excedentes de exportação sejam gerados sistematicamente e não apenas em anos esporádicos; construir uma identidade para o trigo brasileiro baseada em padrão de qualidade tecnológica e regularidade de oferta.

Para que seja possível ganhar a confiança do mercado, Cunha defende a necessidade de identificar e promover ações para a inserção do trigo brasileiro em novos mercados. A construção de novos instrumentos de política agrícola com propósito específico e duração definida, de forma que a saída do governo seja gradativa até que se configure o comando total da iniciativa privada desse processo. “O atrelamento histórico da triticultura aos estímulos governamentais tem sido, historicamente, positivo por um lado e nefasto por outro, ao não se ter conseguido, até hoje, configurar a triticultura no Brasil como uma atividade econômica totalmente independente do Estado”, analisa.

 

Dificuldades

 

Para o pesquisador, a maior dificuldade reside no fato de que, em termos relativos, os produtores de trigo são muitos, com interesses multifacetados e até difusos, e o grupo dos compradores de trigo é formado por poucos atores. “A competição interna no segmento da produção, não raro, é um fator que tem favorecido o comprador. Mas isso não deve significar que o segmento da produção não pode e não está organizado em defesa dos seus interesses. Está, e há iniciativas louváveis nesse sentido, como a da Fecoagro/RS na promoção do trigo exportação; mas precisamos de mais, especialmente na busca sistemática e organizada por novos mercados para o trigo brasileiro. E isso não vai ser fácil e nem rápido”, avalia.

Esse trabalho pode levar pelos menos uma década, desde que não haja solução de continuidade. Outro aspecto que pode ser empecilho é a dificuldade para abandonar a cultura do paternalismo estatal, que tem sido histórico no caso do trigo no país. Cunha defende que o novo modelo da triticultura brasileira terá de ser baseado em eficiência econômica e liderado pela iniciativa privada.

 

Difusão da informação

 

O aprimoramento do conhecimento de técnicos e agricultores é um dos pontos defendidos pelo pesquisador da área de Sistemas de Produção da Embrapa Trigo, João Leonardo Fernando Pires. “Ainda se observa equívocos de manejo básicos pela desinformação. Por exemplo, o uso de redutor de crescimento em cultivares que não necessitam; uso de adubação nitrogenada em excesso ou tardia quando uma dose menor no período tradicional seria suficiente para garantir elevado rendimento e a qualidade desejada; emprego de produtos promotores do rendimento sem validação ou garantia de efeito positivo em termos de custo/benefício; aplicações calendarizadas de produtos protetores”, enumera lembrando que para a maioria dessas situações existem resultados de pesquisa e indicações técnicas que podem respaldar o uso ou não e tornar a triticultura mais rentável, mais profissionalizada e de menor risco.

 

Competição com a soja

 

Pires destaca ainda que algumas questões que têm ganhado espaço no campo precisam ser melhor contextualizadas na região. “Uma questão recente que se torna, em tese, mais um empecilho para o cultivo de trigo é a afirmação de que a antecipação da semeadura da soja para outubro estaria aumentando o rendimento da oleaginosa. Como o trigo não pode ser colhido até este período estaria atrapalhando a cultura principal. Essa foi uma preocupação na safra atual com o excesso de chuvas e possível atraso na semeadura de trigo na região”, exemplifica.

Segundo ele, trabalhos desenvolvidos na Embrapa Trigo por três safras seguidas, com diferentes opções de cultivares (de trigo e soja) e épocas de semeadura para avaliar essa questão, demonstraram que, na realidade, a antecipação da soja para outubro (e a exclusão do trigo e substituição por aveia preta) está, em média, reduzindo o rendimento da soja em 19,4% no Planalto. “No Planalto Gaúcho, o trabalho indicou que a melhor opção em termos de retorno econômico, avaliando as safras de inverno mais a de verão, ainda é a utilização de trigo e soja com a escolha correta de cultivares e manejo ajustado”, reitera.

 

Agregação de valor

 

A agregação de valor ao trigo é uma das medidas defendidas pelo integrante do Sindicato Rural e da Câmara Setorial do Trigo, Júlio Susin. De acordo com ele, a própria Argentina está se reorganizando nesse sentido. O país vizinho está se mobilizando para vender farinha ao invés do trigo in natura. João Leonardo da Embrapa Trigo concorda. “Temos um potencial de rendimento maior que o noroeste do Estado, por exemplo, mas não aproveitamos essa potencialidade. Há espaço para melhoria também na agregação de valor. Cooperativas poderiam atuar mais fortemente na região investindo em moinhos que podem absorver parte da produção e, por meio de segregação, produzir farinha e outros produtos a base de trigo, agregar valor e transferir parte dessa maior valorização ao produtor”, sugere.

O presidente da comissão do trigo da Farsul Hamilton Jardim acredita que o Rio Grande do Sul jamais deixará de produzir trigo devido às regiões privilegiadas próximas à Santa Catarina e também à presença de moinhos. “Outra coisa que vai crescer naturalmente é o produtor se associar a cooperativas que garantam a compra do trigo desde que plante com as especificidades que o moinho daquela cooperativa quer. A tendência é de plantarmos apenas o suficiente para abastecer a demanda dos moinhos locais, do Estado”, opina.

 

Logística

 

O presidente da Câmara Temática de Infraestrutura e Logística do Agronegócio do Ministério da Agricultura, Edeon Vaz Pereira, defende que alterações no sistema logístico do rodoviário para a navegação poderiam representar um grande avanço em um espaço menor de tempo em relação à criação de ferrovias, por exemplo. A cabotagem, que é a navegação pela costa brasileira, é defendida por ele. “Com ela, podemos pegar um produto de Rio Grande ou Imbituba e abastecer as cidades litorâneas e, através delas, fazer a interiorização desse produto. Sairia muito mais barato. O grande entendimento que temos hoje é que dada a legislação da cabotagem vigente, você tem um alto custo de combustíveis e de tripulação e isso faz com que dificulte muito o uso da cabotagem. Hoje se fossemos usar a cabotagem de Rio Grande para abastecer Recife, você vai pagar o mesmo valor de pegar um produto em Rio Grande e levar para a China”, compara.

Se cabotagem funcionasse com isonomia em relação ao transporte de longo curso seria possível uma redução de custo, em relação ao transporte rodoviário, superior a 60%, explica Pereira. “Hoje é inadmissível pegar um caminhão e carregar no sul e levar um produto de baixo valor agregado como o trigo para o nordeste ou centro-oeste”, opina. Ele enfatiza que hoje a Câmara Temática de Logística do Agronegócio do Ministério da Agricultura está tratando disso. “Precisamos ativar de forma definitiva a questão das hidrovias e a navegação nos rios do Rio Grande do Sul, nas lagoas dos Patos e Mirim. Precisamos reduzir os custos logísticos do agronegócio no RS e é possível, basta que haja interesse tanto dos produtores, quanto das lideranças do Estado”, reitera.

 

Plantar o que o mercado precisa

 

O presidente do Sindicato da Indústria do Trigo do Rio Grande do Sul Andreas Elter ressalta a importância de se plantar cultivares valorizadas pelo mercado e de forma que permita a uniformização de lotes, a exemplo da Nota Técnica editada pela Câmara Setorial do Trigo no Rio Grande do Sul com orientações para a segregação da cultura. “Importante observar as boas práticas de produção, em relação à correta utilização de pesticidas, no que tange a somente utilizar o que está autorizado para a cultura, nas quantidades recomendadas, bem como observar os prazos de carência antes da comercialização. Este trabalho de acompanhamento de lavoura, evoluindo, pode vir a se tornar uma rastreabilidade, o que também pode ser bem valorizado pelo mercado”, acrescenta.

Elter concorda que sem a ampliação de portos e ferrovias, os custos de envio de trigo para a região nordeste do país é alta. “Temos que continuar buscando o aumento de produtividade e resistência genética das novas variedades, de formas a baixar o custo de produção. É claro que isto implica em mais tecnologia e investimento por área, porem é o que pode estabelecer sustentação longeva de uma lavoura aqui no RS”, completa.

 

Aposta na exportação

 

O professor e pesquisador da Universidade de Passo Fundo (UPF) Benami Bacaltchuk acredita que entre as alternativas está a integração do sistema industrial com sistema produtivo, buscando mercados alternativos, como o norte da África, Ásia e boa parte da Europa. “Já exportamos mais de 1,2 milhões de toneladas, por que não continuar independente de ainda precisarmos importar para o consumo? A exportação garante renda mais segura e oportuna para o setor e estímulo para a fixação do homem no campo. A consolidação dos mercados externos daria à cultura mais credibilidade no mercado interno que teria competição para o produto”, sugere.

O consultor Irineu Pedrollo da I&MP Consult acredita que trigo brasileiro poderá conquistar espaço e permitir que a produção cresça sem os problemas de liquidez atuais por meio da exportação. “Para conquistar mercados de exportação deveríamos gastar menos tempo pedindo ao governo federal dinheiro para preço mínimo, e mais apoio para pesquisa de cultivares e desenvolvimento de ainda melhores tecnologias de cultivo. Que a infraestrutura proporcione  melhores condições de movimentação desde o interior até aos portos e de maior disponibilidade portuária para que possamos exportar trigo 12 meses do ano e não apenas em 3-4”, propõe. Além disso, a resolução de problemas com o ICMS que travam a comercialização entre os estados; e conquistar um padrão de qualidade que atenda a demanda média do mercado internacional. “Nada excepcional, mas um trigo que tenha um padrão estável de qualidade e que este padrão atenda às necessidades básicas dos principais importadores mundiais. E ter uma estratégia e ação de marketing divulgando este “trigo nacional” nos mercados compradores”, pontua.

 

É preciso valorizar a safra de inverno

 

Além destas diferentes ações, Gilberto Cunha defende que “indiscutivelmente, se quisermos ser mais competitivos em agricultura, não podemos mais relegar a safra de inverno ao segundo plano ou, como não é raro, até mesmo abandonando os nossos campos à nefasta prática do pousio. E o trigo, sem qualquer dúvida, nos sistemas de produção de grãos, é a cultura de inverno mais importante. Não merece essa pecha de cultura problema que só traz prejuízos para a agricultura. Sim, precisamos aumentar, de forma sustentável, a produção de trigo no Brasil!”, conclui.


Fonte: Jornal O Nacional


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